Os restos mortais do psicólogo clínico e docente universitário, Nvunda Will Sérgio Tonet, filho do jornalista e advogado William Tonet, foram a enterrar neste sábado, 24 de Janeiro, no cemitério de Sant’Ana, em Luanda, num clima nostálgico entre familiares, amigos, colegas, sociedade civil e políticos que o acompanharam até à última morada.
Por Berlantino Dário
Várias foram as sensibilidades do país que renderam a última homenagem e que testemunharam o último adeus a Nvunda Tonet que faleceu aos 20 de Janeiro do ano em curso, na clínica Girassol, por doença e que supostamente não lhe foi prestado os primeiros socorros quando deu entrada naquela “prestigiada” unidade sanitária do país.
Em reacção, a presidente da bancada parlamentar da UNITA, Albertina Navemba Navita Ngolo, lamentou não apenas pela família, mas por toda a sociedade que chora pela morte de Nvunda, bem como pelo vazio que deixa no sector da saúde. Navita Ngola apelou, por outro lado, ao Ministério da Saúde que nos últimos tempos tem vindo a promover campanhas acerca da humanização na actuação dos seus profissionais a pautarem-se pela ética, rigor e compaixão.
“O que dói neste momento é que ele foi uma pessoa humana, prestou o seu serviço, o seu saber, as suas valências com humanidade para além da ciência, mas no momento em que ele mais precisou do lado humano da saúde que ele abraçou desde cedo, a falta de humanidade tirou-o do seio da sua família”, lamentou, por outro lado, pela forma como Nvunda Tonet perdeu a vida – “sinceramente falando, nós vimos chamar a atenção, sobretudo, ao Ministério da Saúde que tanto fala de humanismo e da humanidade no sector da saúde que perdeu o seu colega que prestou serviço no ministério, que prestou serviço no sector mais complicado que é o da psiquiatria e do estudo do comportamento humano que o momento é de reflexão”.
“Se o Nvunda teve que ser mártir da falta de humanismo no sector da saúde, é caso para dizer que mesmo no dia da sua morte, ele está a deixar-nos a lição de que devemos rever-nos, enquanto pessoas devemos rever-nos enquanto Estado”, apelou.
Questionada sobre a forma como Nvunda foi atendido na clínica Girassol, a líder da bancada parlamentar do Galo Negro, aos microfones do Folha 8, salientou que “tudo o que se diz é que ele chegou ao hospital e não foi atendido enquanto a família não tivesse pago. Não é o primeiro cenário, são muitos cenários que acontecem nesses hospitais e, portanto, gostaríamos de chamar a atenção, e numa clínica que é tutelada pela Sonangol, a Sonangol que gere recursos de todos nós”.
“Uma clínica que também beneficia de recursos públicos e que está a fazer da saúde um negócio, em vez de fazer da saúde um verdadeiro espaço para recuperar vidas, para realizar humanismo e, sobretudo, para continuar a abraçar as famílias. Portanto, é caso para se dizer, tanto a saúde como a educação em Angola estão a ser uma fonte de negócios de uma classe privilegiada”, revelou, por outro lado, sendo a clínica Girassol tutelada pela Sonangol, empresa pública que gere recursos estratégicos que são de todos os angolanos, sendo que a unidade sanitária “negou dar os primeiros socorros a alguém que cuidou da saúde e o mais importante – da saúde das pessoas”.
Entretanto, Navita Ngolo apelou às direcções das clínicas do país a reflectir e primarem em primeira instância pela vida e só depois está o resto.
“Aos profissionais de saúde, estando nas clínicas, nos hospitais públicos antes de tudo, aliás, o juramento desses profissionais, em primeiro lugar é respeitar a vida humana. O nosso estado democrático de direito tem como primado o respeito pela dignidade humana. A vida está acima de tudo”, exortou.
Questionada se o comportamento da clínica terá sido movido pelo facto de Nvunda Tonet, em vida, ter sido filho do jornalista e advogado William Tonet, crítico das políticas governativas do partido-estado, Ngolo, categórica, esclareceu: “O posicionamento do William é de um servidor da pátria e, portanto, não pode ser penalizado por quem quer que seja. Mas, se alguém também fez ninguém fica nessa terra para a semente e a justiça de Deus até pode tardar, mas chega”.
Por sua vez, Rafael Massanga Sakaita Savimbi, vice-presidente da bancada parlamentar da UNITA, apelou igualmente aos profissionais de saúde a pautarem-se pelo bem vida nas suas actuações, com mais humanismo, compaixão e vontade de ajudar quem quer seja.
“É por isso que aqueles que abraçam, mais uma vez deixo a mensagem, aqueles que abraçam essa profissão têm de ter em consideração este lado. Têm de ter compaixão, têm de ter vocação, têm de ter vontade de servir os outros”, aconselhou.
Para os amigos e familiares, Massanga Savimbi desejou “muita coragem”, e lembrou que a perda de um homem da dimensão e com a qualidade do Nvunda “não se substituem”. “Infelizmente é preciso muita coragem e aprender a viver com a sua ausência”, lamentou.
“Não é fácil, nunca mais haverá um outro Nvunda. Mas, o fundamental é transformar esta dor em força de honrar o seu legado, em força de honrar e perpectuar a sua memória e as suas obras”, apelou.
Sobre a suposta “banalização” que se tem vindo a propalar por parte da clínica desde as primeiras horas que Nvunda deu entrada naquela unidade sanitária, Massanga lamentou, nas entrelinhas, pelo facto de Angola ser um país muito complexo onde, infelizmente, ainda questões políticas se misturam a vida profissional das pessoas.
“O Nvunda era um jovem de 39 anos, completaria 40 agora em Agosto, sejam lá quais forem às posições políticas e sociais do seu pai não tem nada a ver com o Nvunda e, eu, na minha qualidade como podem imaginar reencontro-me um pouco nessa situação em que às vezes somos vítimas porque você é filho “de”.
“É vítima porque o pai foi isso ou aquilo, não tem nada a ver. Nós temos de dar um salto qualitativo neste país, se nós queremos construir uma Angola diferente, se nós queremos projectar um futuro melhor já não é para nós, mas é para os nossos filhos, é para as próximas gerações. Então, o Nvunda, vítima deste maltrato e que o leva a óbito é deplorável e é condenável a todos os títulos”, considerou Massanga Savimbi, vice-presidente da bancada parlamentar do Galo Negro e filho do fundador do partido UNITA, Jonas Malheiro Savimbi.


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